sábado, 27 de abril de 2013

A Revelação Divina e o Processo Civilizador

Baseado em palestra ministrada pelo Pe. Gabriele Brusco, LC no Retiro de Convivência e Espiritualidade realizado pelo Grupo de Estudos Joseph Ratzinger, de Curtiba, em Mandirituba no dia 25 de março de 2012.
As três etapas da Revelação como progressivo moldador dos costumes no Povo de Deus.

sábado, 30 de março de 2013

Páscoa: uma alegria que não pode ser tirada


Hoje é o dia mais importante do ano, iniciado com a Solene Vigília Pascal. Neste dia a cerimônia da Missa é mais longa, com leituras que sintetizam toda a História da Salvação. A igreja começa no escuro e as luzes se acendem ao badalar dos sinos e ao entoar do hino Gloria in excelsis Deo. Hoje celebramos aquela alegria do qual Cristo falou ainda no dia de sua agonia aos discípulos, referindo-se a essa como uma "alegria que ninguém vos poderá tirar". Cristo ressucitou, venceu a morte. Ninguém poderá nos tirar essa razão de esperança.


É muito significativo um dos primeiros gestos da Liturgia da Vigília: a chama do Círio Pascal é passada para as pequenas velas portadas pelos fiéis. Tal gesto mostra que recebemos, tal como a pequena vela, a Fé de Cristo através da Igreja e que essa Fé é uma chama que espalha-se sem contudo dissolver-se ou diminuir-se. Cristo é a Luz do Mundo e unidos a Ele somos também chamados a ser Luz do Mundo. Vivendo os valores do Evangelho no nosso quotidiano, encarando nossos estudos, trabalhos, afazeres e todos os aspectos do dia como um serviço a Deus e ao próximo poderemos alcançar a felicidade essencial de nossa vocação cristã: a santidade! Que nossa vida seja um contínuo apostolado. Como a chama que se espalha, espalhemos a alegria de Cristo ressucitado em nosso meio!





sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Semente ou molho? Reflexão para o ano da Fé

Quando Nosso Senhor Jesus Cristo comparou a Fé ao grão da mostarda, penso que alguns sempre tentaram a pensá-la como um molho de mostarda. Explico-me: a ação da semente ou grão é interior: cai no sulco da terra, germina e cresce, fixando raízes. A ação do molho, ao contrário, esparrama-se por cima do alimento a fim  de conferir-lhe um distinto sabor que contudo, não passa de um disfarçe e de mera exterioridade, não integrando-se ao alimento sobre o qual se derramou. Assim, podemos refletir sobre o Apostolado e o Triunfalismo.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Quem eram os magos do Evangelho II - novas considerações

Ano passado publiquei um post sobre os magos relatados no Evangelho de Mateus nas quais me baseava nas considerações de Walter Drum, na Enciclopédia Católica, que sustentava como hipótese mais provável a de que os magos seriam indivíduos pertencentes a uma antiga casta sacerdotal persa que, no reinado da dinastia dos Partos, integravam o conselho real. Tal hipótese era referendada por alguns testemunhos da Tradição que se referiam aos magos como vindos da Pérsia, bem como pela iconografia cristã da Antiguidade Tardia que sempre os representou com a indumentária persa (calças compridas, túnica curta, capa e e o tradicional gorro frígio).
Contudo, recenetmente tive contato com comentários exegéticos do Pe Ignacio de Nicolas, dos padres escolápios na qual o exegeta sustenta uma distinta hipótese: os magos pertenceriam ao povo dos árabes nabateus.[1] Pe. Ignacio argumenta que, se fossem persas, os magos teriam adentrado pela porta norte de Jerusalém, ao contrário dos Nabateus, que entrariam pelo Leste, de forma que poderiam ser mais facilmente identificados como visitantes "vindos do Oriente". Os Nabateus eram um povo de origem árabe, formando um reino próximo á Judéia. O reino dos nabateus teve relações comerciais com Herodes, embora tenha havido guerra entre Herodes e os nabateus em alguns momentos. Segundo o exegeta escolápio, os nabateus comercializavam mirra, incenso e ouro com os judeus, o que faria com que fosse mais provável os magos serem nabateus, dado os presentes oferecidos ao Menino Jesus terem sido ouro, incenso e mirra, que não eram produtos habitualmente comercializados pelos persas na região. De fato, alguns autores da Patrística sustentaram igualmente que os magos teriam provindo da Árabia ou alguma região próxima. A arte paleo-cristã, por outro lado, - ao menos no que as interpéries do tempo nos legou - , parece ter aderido unanimemente à possibilidade dos magos serem persas.
Parece-me, entretanto, que ambas as hipóteses são verossímeis. Se por um lado a hipótese do Pe. Nicolas explicaria melhor a questão dos presentes oferecidos, penso que a hipótese dos magos serem persas explicaria o temor de Herodes com a visita dos magos: basta lembrarmos que Herodes subiu ao poder como rei da Judéia em 37 a.C. destronando o monarca asmoneu Antígono, que era controlado pelo Império Parto. Não teria Herodes pensando que os magos, sendo persas, estariam buscando um outro rei, que fosse do agrado do Rei dos partos?
Mesmo não havendo consenso com relação à origem dos magos, o que importa acima de tudo é que este episódio nos mostra que Cristo veio inaugurar uma aliança para todos os povos, chamando os magos como primícias entre os povos gentios, mostrando que Deus guia todos os povos em direção do Seu Filho, Jesus.

Notas:
[1] O comentário do Pe. Ignacio pode ser encontrado aqui: http://xppascom.files.wordpress.com/2011/02/exegese-ano-a-mateus-domingo-da-epifania-mt-2-1-12.pdf

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Por que o Natal fascina?

Não, não estou falando de luzes piscantes, de árvores, da profusão de vermelho que parece uma ressurreição da tintura têxtil flamenga quatrocentista, de lojas lotadas, nem nada disso. Falo do muitas vezes esquecido, mas igualmente majestoso, nascimento do Salvador do Mundo em Belém da Judéia. Bem o sabemos que não há ainda consenso entre os estudiosos sobre a data precisa do nascimento, desde que levantou-se a hipótese de erro de cálculos do monge Dionísio Esíguo, do século VI quando passou-se a datar os anos com base no nascimento de Jesus Cristo. Sabemos, contudo, que nasceu durante o período em que Otaviano César Augusto imperava sobre a orbe romana, no tempo em que Quirino governava a província da Síria sob as ordens de César, exercendo certa hegemonia sobre o reino da Judéia, cuja coroa a cingia Herodes, dito O Grande.
Depois de longas guerras civis, Roma vivia a Pax Romana. Sob o manto e a aparência da continuidade de funcionamento das antigas instituições republicanas, Otaviano César havia inaugurado um novo regime, o Principado, colocando-se acima das demais instituições e magistraturas na condição de Princeps, o primeiro dentre os cidadãos e o primeiro no Senado. Muitos viam na figura do César uma unidade capaz de garantir a unidade do mundo romano. É verdade que Otaviano conseguiu manter relativamente a paz durante seu império, mas essa paz provinda das armas e das legiões reorganizadas provou-se instável: o título de César passou a ser disputado com violência, da mesma forma que outrora disputava-se em fratricidas guerras civis o controle da magistratura consular ou a cadeira de Ditador.




Na Judeia, reinava Herodes que soube fazer o jogo político dos romanos para consolidar seu trono, de moldes bastante helenísticos. Apoiador do general Marco Antônio (rival de Otaviano, sobrinho do ditador Júlio César), Herodes não logrou trocar de lado por ocasião da derrota do aliado na Batalha do Ácio em 31 a.C., colocando sua diadema dourada aos pés do novo senhor de Roma, Otaviano. Herodes devia essa coroa ao poder romano, haja vista que fora com o apoio do Senado romano que fora proclamado rei da Judéia por Marco Antônio e Otaviano e com o auxílio das legiões romanas que esse general meio judeu e meio idumeu conseguiu tomar Jerusalém, destronando o último rei da dinastia judaica dos Asmoneus, controlado pelo rei dos Partos (dinastia reinante na Pérsia). Desta forma, Herodes carecia de legitimidade frente ao povo judeu, tanto devido à sua origem quanto à forma com que adquiriu seu poder. Ao passo que os precedentes reis asmoneus detinham junto ao poder régio o ofício de Sumo Sacerdotes do Templo de Jerusalém, Herodes reinava à maneira dos reis helenísticos, tal como os reis da dinastia selêucida, contra os quais os judeus haviam se rebelado um século antes devido à tentativa de imposição do culto greco pagão em detrimento do culto judaico. Herodes consolidou seu poder através da via militar, construindo grandes fortalezas em pontos estratégicos do reino, bem como organizando um exército inspirado dos moldes romanos e helenísticos, além do uso de mercenários de diversas regiões. Dessa forma entende-se o por quê Herodes temia tanto a vinda de outro rei: ele sabia bem que sua legitimidade era questionável. 
A verdade é que tanto Augusto quanto Herodes só detinham algum poder sobre a terra por desígnio da Divina Providência.
Quando já estava consolidado Otaviano como César e Roma e quando Herodes já reinava seus últimos anos na Judéia, nasceu em Belém o próprio Deus feito carne. Esquecido. Quase não foi notado. Nasceu em um estábulo de animais, sujeito ao frio, em meio ao odor dos excrementos de bovinos e eqüínos, ao mesmo tempo em que Augusto residia em sua suntuosa residência no monte Palatino e Herodes revezava-se entre seus luxuosos palácios de Jerusalém e Jericó. Contudo, esse Menino que nasce despojado é não somente o Senhor de toda a terra que o abriga e de todo o céu escuro que o encobre, mas tudo isso é igualmente obra Sua. O fascínio do Natal reside nesse fato: o frágil bebêzinho que dorme envolto em baixas timidamente protejendo-se do frio naquela improvisada cama de manjedoura onde se nutriam os animais é o próprio deus, cuja Glória cantam os anjos! Não nos comove o fato de vermos Deus, de quem nos sentimos tão distantes pela fragilidade e pequenez de nossa natureza decaída, bem como o peso de nossa inqüidade, tenha tomado a nossa natureza para nos salvar? Aqui Deus mostrou que a grandeza da Natureza humana, que criou para amá-Lo e estar sempre unido a Ele, não obstante tenha se perdido pelo pecado, foi restaurada de forma admirável quando o Filho de Deus se fez homem, assumindo a natureza humana desde o momento da concepção no ventre virginal de Maria. O Senhor nos deu uma lição de humildade com seu desapercebido nascimento.

Naquela noite derradeira, poucos tiveram conhecimento ou estiveram abertos para contemplarem a natividade do Salvador enquanto muitos tinha ciência de quem era Augusto e quem era Herodes. Mas muito mais do que as estátuas de César e as grandiosas obras arquitetônicas de Herodes, esse escondido episódio do estábulo de Belém multiplicou-se por séculos de Arte Sacra e os presépios ainda dominam em muitos lugares, muito embora muitas pessoas hoje em dia queiram proscrever os presépios por motivos muito menos nobres dos que foram provavelmente utilizados como desculpar para não darem hospedagem à Sagrada Família nos lares de Belém.
Felizes foram os pastores humildes que receberam a graça do anúncio do anjo e puderam contemplar a sublime visão do Deus Menino dormindo evolto em faixa, embalado pelo canto celeste dos coros angélicos! Felizes foram os magos que, mesmo distantes, souberam abrir-se à Verdade, reconhecendo e seguindo os sinais de Deus podendo também encontrar á Jesus e prestar-Lhe suas homenagens! Infeliz foi Otaviano, que faleceu sem saber que sob seu império começava a obra da Redenção! Infeliz foi Herodes que, mesmo sabendo da chegada do Salvador quis em sua soberba disputar o lugar com o próprio Deus!

Que tenhamos o exemplo dos pastores e dos magos e sabiamos nos abrir à Graça de Deus. Aproveitemos especialmente a Santa Missa para contemplarmos e nos unirmos a esse Jesus que se fez pequenino por nós em Belém. Quantos não suspirariam pela chance de estarem presentes naquela noite santa, diante daquela manjedoura?! Pois bem, vós estais diante do mesmo Jesus que se fez Menino, quando vos colocais diante da Eucaristia! Na Eucaristia está presente o mesmo Cristo, em Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, que sentiu frio e chorou em Belém.
Pensemos também em renovarmos nossa defesa pela Dignidade Humana, dignidade essa que valeu a vinda do próprio Deus na carne. Que o Senhor, que nasceu rejeitado, nos ensine a sermos mais caridosos.
É verdade que continuam a haver maldades e injustiças no mundo, pois nem todos tiveram ainda a boa vontade de receber o Principe da Paz! Mas desde aquela noite em que Deus nasceu como um bebêzinho, o mundo nunca mais foi o mesmo. Que a beleza humilde e sublime desse acontecimento que essa noite celebramos nos inspire a sermos mais santos!

Sermão nº 23 de São Leão Magno sobre o Natal do Senhor


"Já muitas vezes, caríssimos, ouvistes falar e fostes instruídos a respeito do mistério da solenidade de hoje; porém, assim como a luz visível enche sempre de prazer os olhos sadios, também aos corações retos não cessa de causar regozijo a natividade do Senhor.

Jamais devemos deixá-la transcorrer em silêncio, embora não possamos condignamente explaná-la, pois aquela palavra: "a sua geração, quem a poderá explicar?"(Jo 53, 8) se refere certamente não só ao mistério pelo qual o Filho de Deus é co-eterno com o Pai, mas ainda a este nascimento em que "o Verbo se fez carne" (Jo 1, 14).

O Filho de Deus, que é Deus como seu Pai, que recebe do Pai sua mesma natureza, Criador e Senhor de tudo, que está presente em toda parte e transcende o universo inteiro, na seqüência dos tempos que, de sua providência dependem, escolheu para si este dia, a fim de, em prol da salvação do mundo, nele nascer da bem-aventurada Virgem Maria, conservando intacto o pudor de sua mãe. A virgindade de Maria não foi violada no parto, como não fora maculada na conceição, "a fim de que se cumprisse - diz o evangelista - o que foi pronunciado pelo Senhor, através do profeta Isaías: Eis que uma virgem conceberá no seu seio e dará à luz um filho, ao qual chamarão Emanuel, que quer dizer Deus conosco" (Mt 1, 23; Cf. Is 7, 14).

O admirável parto da sagrada Virgem trouxe à luz uma pessoa que, em sua unicidade, era verdadeiramente humana e verdadeiramente divina, já que as duas naturezas não conservaram suas propriedades de modo tal que se pudessem distinguir como duas pessoas: não foi apenas ao modo de um Habitador em seu habitáculo que o Criador assumiu a sua criatura, mas, ao contrário, uma natureza como que se adicionou à outra. Embora duas naturezas, uma a assumente e outra assumida, é tal a unidade que formam, que um único e mesmo Filho poderá dizer-se, enquanto verdadeiro homem, menor que o Pai (Jo 14, 38) e enquanto verdadeiro Deus, igual ao Pai (Jo 10, 30).

Uma unidade dessas, caríssimos, entre Criador e criatura, o olhar cego dos arianos não pôde entender, os quais, não crendo que o Unigênito de Deus possua a mesma glória e substância do Pai, afirmaram ser menor a divindade do Filho, argumentando com as palavras (evangélicas) que dizem respeito à forma de servo (Fl 2, 6).

Ora, o próprio Filho de Deus, para mostrar como essa condição de servo nele existente não pertence a uma pessoa estranha e distinta, com ela mesma nos diz: "eu e o Pai somos uma só coisa" (Jo 10, 30)

Na natureza de servo, portanto, que ele, na plenitude dos tempos, assumiu em vista da nossa redenção, é menor do que o Pai; mas na natureza de Deus, na qual existia desde antes dos tempos, é igual ao Pai. Em sua humildade humana, foi feito da mulher, foi feito sob a Lei (Gl 4, 4), continuando a ser Deus, em sua majestade divina, o Verbo divino, por quem foram feitas todas as coisas (Jo 1, 3). Portanto, aquele que, em sua natureza de Deus, fez o homem, revestiu uma forma de servo, fazendo-se homem; é o mesmo o que é Deus na majestade desse revestir-se e homem na humildade da forma revestida. Cada uma das naturezas conserva integralmente suas propriedades: nem a de Deus modifica a de servo, nem a de servo diminui a de Deus. O mistério, pois, da força unida à fraqueza, permite que o Filho, em sua natureza humana, se diga menor do que o Pai, embora em sua natureza divina lhe seja igual, pois a divindade da Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é uma só. Na Trindade o eterno nada tem de temporal, nem existe dissemelhança na divina natureza: lá a vontade não difere, a substância é a mesma, a potência igual, e não são três Deuses, unidade verdadeira e indissociável é essa, onde não pode existir diversidade.

Nasceu pois numa natureza perfeita e verdadeira de homem o verdadeiro Deus, todo no que é seu e todo no que é nosso. "Nosso" aqui dizemos que o Criador criou em nós no início, e depois assumiu para restaurar. O que, porém, o sedutor (o demônio) introduziu e o homem, ludibriado, aceitou, isso não teve nem vestígio no Salvador, pois comungando com nossas fraquezas não participou dos nossos delitos. Elevou o humano sem diminuir o divino, dado que a exinanição em que o Invisível se nos mostrou visível foi descida de compaixão, não deficiência de poder.

Assim, para sermos novamente chamados dos grilhões originais e dos erros mundanos à eterna bem-aventurança, aquele mesmo a quem não podíamos subir desceu até nós. Se, realmente, muitos eram os que amavam a verdade, a astúcia do demônio iludia-os na incerteza de suas opiniões, e sua ignorância, ornada com o falso nome de ciência, arrastava-os a sentenças as mais diversas e opostas. A doutrina da antiga Lei não era bastante para afastar essa ilusão que mantinha as inteligências no cativeiro do soberbo demônio. Nem tampouco as exortações dos profetas lograriam realizar a restauração de nossa natureza. Era necessário que se acrescentasse às instituições morais uma verdadeira redenção, necessário que uma natureza corrompida desde os primórdios renascesse em novo início. Devia ser oferecida pelos pecadores uma hóstia ao mesmo tempo participante de nossa estirpe e isenta de nossas máculas, a fim de que o plano divino de remir o pecado do mundo por meio da natividade e da paixão de Jesus Cristo atingisse as gerações de todos os tempos e, longe de nos perturbar, antes nos confortasse a variação dos mistérios no decurso dos tempos, desde que a fé, na qual hoje vivemos, não variou nas diversas épocas.

Cessem, por isso, as queixas dos que impiamente murmuram contra a divina providência e censuram o retardo da natividade do Senhor, como se não tivesse sido concedido aos tempos antigos o que se realizou na última idade do mundo. A Encarnação do Verbo podia conceder, já antes de se realizar, os mesmos benefícios que outorga aos homens, depois de realizada; o ministério da salvação humana nunca deixou de se operar. O que os apóstolos pregaram, os profetas prenunciaram; não foi cumprido tardiamente aquilo a que sempre se prestou fé. A sabedoria, porém, e a benignidade de Deus, cem essa demora da obra salutífera, nos fez mais capazes de nossa vocação, pois o que fora prenunciado por tantos sinais, tantas vezes e tantos mistérios, poderíamos reconhecer sem ambigüidade nestes dias do Evangelho. A natividade, mais sublime do que todos os milagres e do que todo o entendimento, geraria em nós uma fé tanto mais firme quanto mais antiga e amiudada tivesse sido antes sua pregação. Não foi, pois, por deliberação nova ou por comiseração tardia que Deus remediou a situação do homem, mas, desde a Criação do mundo instituíra uma e mesma causa de salvação, para todos. A graça de Deus, que justifica os santos, foi aumentada com o nascimento de Cristo, não foi simplesmente principiada. E esse mistério da compaixão, esse mistério que hoje já enche o mundo, fora tão potente em seus sinais prefigurativos que todos os que nele creram, quando prometido, não conseguiram menos do que os que o conheceram realizado.

São assim, caríssimos, tão grandes os testemunhos da bondade divina para conosco que, para nos chamar à vida eterna, não apenas nos ministrou as figuras, como aos antigos, mas a própria Verdade nos apareceu, visível e corpórea. Não seja, portanto, com alegria profana ou carnal que celebremos o dia da natividade do Senhor. celebra-lo-emos dignamente se nos lembrarmos, cada um de nós, de que Corpo somos membros e a que Cabeça estamos unidos, cuidando que não se venha a inserir no sagrado edifício uma peça discordante.

Considerai atentamente, caríssimos, sob a luz do Espírito Santo, quem nos recebeu consigo e quem recebemos conosco: sim, como o Senhor se tornou carne nossa, nascendo, também nós nos tornamos seu Corpo, renascendo. Somos membros de Cristo e templos do Espírito Santo e por isto o Apóstolo diz: "Glorificai e trazei a Deus no vosso corpo" (1Cor 6, 20). Apresentando-nos o exemplo de sua humildade e mansidão, o Senhor comunica-nos aquela mesma força com que nos remiu, conforme prometeu: "Vinde a mim, vós todos, que trabalhais e estais sobrecarregados, e eu vos reconfortarei. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para vossas almas" (Mt 11, 28s).

Tomemos, portanto, o jugo, em nada pesado e em nada áspero, da Verdade que nos guia e imitemos na humildade aquele a cuja glória queremos ser configurados. Que nos auxilie e nos conduza às suas promessas quem em sua grande misericórdia é poderoso para apagar nossos pecados e completar seus dons em nós, Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina pelos séculos dos séculos. Assim seja."



(PL 54, 199ss.) Extraído de: http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/s_leao_magno_sermao23_natal_do_senhor.html

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Por Dr. Rafael Vitola Brodbeck, Delegado de Polícia
Dia desses, escrevi o seguinte, em inglês, a amigos dixies (sulistas americanos, herdeiros da tradição dos confederados da Guerra Civil), sobre nossa semelhança com eles:

A Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos foi uma guerra civil entre o Império e o Rio Grande do Sul, o qual tem uma cultura própria, a cultura gaúcha, a mesma que na Argentina e Uruguai. O Rio Grande tem uma identidade própria, muito semelhante ao do sul dos Estados Unidos, e totalmente diferente do resto do Brasil. Nós, no Rio Grande do Sul, falar português mas com sotaque espanhol e palavras em espanhol, nossas danças, música, comida e roupas são argentino / uruguaio. Aqui, temos temperaturas frio e da neve, ao contrário do Brasil. Nós, no Rio Grande do Sul, adoramos a nossa bandeira - que é a mesma usada na Revolução Farroupilha - talvez até mais do que a bandeira brasileira, assim como as dixies fazer com a sua bandeira confederada.

Até hoje, comemoramos a Revolução com festas, desfiles a cavalo, trajes típicos, honrando os nossos generais e os heróis do Rio Grande, a cada ano. E reencenamos batalhas em nossos sítios históricos. Rio Grande do Sul e sul dos Estados Unidos são gêmeos.

O mesmo ocorre na Argentina e no Uruguai, ao celebrar Artigas, Urquiza, San Martin, Mitre, em suas guerras intestinas e na independência das províncias do Prata.

Havia várias correntes de pensamento na Revolução. E a de Garibaldi, embora importante, era uma minoria. É uma "legenda negra" o ideal maçônico da Revolução Farroupilha. Os maçons estavam também no Império (lembre-se D. Vital?)... E havia católicos na Farroupilha. Sim, o Império não era um tirano "per se", mas com o centralismo (com o iluminista D. Feijó na Regência) e o anti-federalismo do Segundo Império, com muitos impostos, havia se tornado um.

Havia maçons entre os farroupilhas, como os havia no Império. Grande parte dos líderes farroupilhas (como o principal, o Gen Bento Gonçalves) eram conservadores e ao menos simpatizantes da monarquia (Bento Gonçalves apenas TOLEROU a independência feita pelo Gen. Netto na sua AUSÊNCIA - eis que estava preso - e mesmo assim para chamar a atenção do Império contra os altos impostos).

O inimigo dos farroupilhas não era o Imperador Pedro II, mas Feijó e os pseudo-conservadores e centralistas. O objetivo do Revolução não foi necessariamente a implantação da república, mas do federalismo. O epíteto de "liberal" em Farroupilha não foi ao estilo maçônico, necessariamente, mas contra o centralismo e a favor do federalismo - à semelhança dos "federales", herdeiros do uruguaio Artigas, nas guerras intestinas argentinas contra os unitários.

Bento Gonçalves, em 1835, disse respeitar o juramento que tinha feito ao código sagrado, ao trono e à manutenção da integridade constitucional do Império. Em princípio, portanto, a revolta não era um caráter separatista, mas se dirigia contra o Presidente da Província do Rio Grande e contra o Comandante das Armas.

Os farroupilhas queriam paz e estavam prontos para se juntar ao Exército Imperial, no qual lutaram bravamente na Guerra do Paraguai. Os herdeiros dos farroupilhas foram os maragatos na Revolução Federalista de 1895 contra a República maçônica e positivista. E alguns dos maragatos eram pró-monarquia e queriam restaurar o Império. O federalismo do maragatos foi o mesmo dos farroupilhas.

De fato, Bento Gonçalves foi um dos entusiastas do Tratado do Ponche Verde, que fez a paz com o Império. A separação nunca foi o objetivo da maioria dos farroupilhas, mas, como escrevi, a luta contra a Regência, o centralismo e a "taxation with no representation". Eu sou um monarquista e também um farroupilha. Recusando, de fato, a ajuda de argentinos e uruguaios, o general David Canabarro, herói farrapo e amigo de Bento Gonçalves, disse: "Com o sangue do primeiro castelhano a cruzar a fronteira, assinaremos a paz com o Império." A luta foi pelo federalismo, não necessariamente contra o Brasil. Aliás, anos mais tarde, os mais bravos soldados do Brasil na guerra contra o Paraguai, foram farroupilhas antigos ou os seus filhos.

As duas novas repúblicas da Guerra dos Farrapos foram transitórias, para forçar o Império a rever os impostos e implantar o federalismo real (como os maragatos, mais tarde). Mas, sim, havia infiltração maçônica, mas os "pedreiros-livres" estavam também entre os militares do Império, com yankees, com os confederados etc.

Outras informações: a Constituição da República Riograndense, inaugurada pela Revolução Farroupilha, previa a Igreja Católica Romana como a religião oficial do Estado; os principais eventos foram celebrados nas igrejas paroquiais, onde eles cantaram o Te Deum; Bento Gonçalves utilizou as lojas maçônicas como um lugar de conspiração para o seu segredo, mas ele mesmo não era maçom proeminente, nem tinha comunhão com os ideais carbonários - como Garibaldi tinha; Bento Gonçalves mandava celebrar a Missa de Requiem para as almas dos farroupilhas e INIMIGOS IMPERIAIS mortos em campos de combate, e venerava os sacerdotes, não permitindo, além disso, que as igrejas protestantes tinham aspecto exterior da igreja; havia capelães oficiais com o Exército dos farrapos; a maioria do clero católico apoiou a Revolução; Pe. Chagas foi declarado como vigário apostólico por Bento Gonçalves, invocando o direito do Padroado, e foi solicitada a confirmação do Papa, que não a deu porque a consumação da separação não foi finalizada.

É uma prova substancial de que os farroupilhas queriam permanecer católicos, não-maçônicos (um pequeno grupo, liderato por Garibaldi era maçônico e anticlerical). Após a pacificação do Rio Grande, o Império e a Santa Sé confirmaram o desejo dos farroupilhas em ter uma diocese, e a criou em Porto Alegre; muitos sacerdotes farroupilhas, como padres Fidêncio, Lobato e Caldas, foram confirmados, depois da paz, como sacerdotes no RS, e distinguiram-se como construtores de igrejas e apóstolos vigorosos, mesmo durante a guerra.

Um padre farroupilha, Pe. Lobato foi, após a guerra, secretário do bispo.

Um outro sacerdote farroupilha, Pe. Hildebrando, pároco de Bagé, morreu com a odor de santidade.